sábado, 29 de junho de 2013

O culto da feiosidade

O Nuno Artur Silva tem o valor que tem. Já lhe pedi emprego, já fui a um casting para um programa no Canal Q. Adorava ter um programa no Canal Q, ou até um naquele canal do Correio da Manhã, quem sou eu. Adorava poder ganhar algum dinheiro com aquilo que gosto de fazer, falar, dizer merdices, opinar, generalizar, achar-me o máximo, pouco compreendida, trabalhar no Canal Q. O despeito é uma idiotice e isto até pode ser despeito porque ninguém me quer a escrever para lugar nenhum. Não recebo convites, não têm interesse nenhum em mim, mas o Canal Q devia deixar-se de merdas e empregar, também, pessoas giras e verdadeiras. Há um senhor no Canal Q que faz umas entrevistas num programa intelectualmente pedante, e muito parvo que se acha o máximo a humilhar os tarados que lá vão. O Canal Q podia empregar pessoas que não se vestissem propositadamente na Loja do Chinês e  morassem em Cascais. Nomeadamente a mim, que agora vivo em Cascais e que às vezes até posso parecer pouquíssimo suburbana. O Canal Q parece uma grupeta de vingativos cientes da sua feiura e da sua suburbanidade e da sua intelectualidade especial e do seu humor único e brilhante. O Canal Q é para mim o retrato do país que adora Massamá. Um dia também achei graça ao Canal Q. Agora irrita-me imenso. Deve ser porque estou velhota para as brincadeiras obtusas que por lá passam. Gozar com os que são diferentes de nós e achar que isso é uma coisa "muita gira" não deveria ser interessante. Bom dia, bom fim de semana e viva as pessoas que já andam irritadiças com o Q.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sempre serei uma perdida

Nunca fui dona da minha vida. Comecei a tentar aos 35 e correu tudo mal. Tenho 42 e continua a correr tudo mal. Uma pessoa toma uma decisão e se for uma pessoa como eu, nunca tem a certeza da certeza dessa decisão. A maioria dos dias que correm tenho saudades de quando a vida corria e não tinha que tomar decisões e aí parecia que a vida me corria melhor. Acontece que quis mudar, certa que era bom ser eu a comandar e que já bastava de acasos e rabinhos virados para a lua. Mas as coisas quando lhes queremos tomar as rédeas custam muito, principalmente quando, como eu, nunca sabemos exactamente o que queremos. Não saber o que se quer da vida aos 20 é fácil e até enternecedor, acontece que não saber o que se quer da vida aos 42 é um bocado chato para os próprios e pode levar à loucura aqueles que ainda nos acompanham nesta coisa esquisita que é a vida. Odeio ter que tomar decisões é por isso que se chegar aos oitenta e depois morrer os meus amigos já sabem que as cinzas terão que ser deitadas ao mar ao largo das Ilhas Cagarras ao som de Dancing Queen. Também serão velhinhos os meus amigos que finalmente irão adorar uma decisão tomada por mim.

domingo, 28 de abril de 2013

Como Van gogh, woody Allen, susan sontag ou uma foto da annie leibovitz, O Flirt.

O flirt é a seguir a dormir a melhor coisa do mundo. Flirtar faz bem a nós e à nossa pessoa amada.  É como ressuscitar, como tomar um banho gelado e depois ir dormir em conchinha para o pé do amor com quem já flirtamos muito. Escolher um bom flirt é uma arte. É saber que ele nao nos vai foder, nem quer, nem nós a ele. Por exemplo, Só se pode flirtar bem com pessoas que adoram as nossas pessoas amadas, senão não nos estamos a portar bem, não senhora.

terça-feira, 16 de abril de 2013

"Mãe, Tem que ter calma no seu coração."

Vai ser um despudor. Vai finalmente ser um despudor. O que aqui vou escrever, sobre o que aqui vou escrever. O meu sexo, o sexo, qualquer sexo não é nada. Mesmo que fosse escrever sobre sexo com anões, com animais, com infantes. Ou mesmo que não fosse sexo e fosse outra coisa qualquer má, que expusesse a mim ou a alguém. Já fiz isso de mentira, tudo mentira. Da minha experiência, que é uma merda, as pessoas gostam de acreditar, ou acreditam mais depressa na mentira ou ficam mais excitadas com a mentira do que com a verdade.
A verdade, aquilo sobre o que nunca fui capaz de escrever foi sobre ser mãe. Foi sobre estar sempre a dizer adeus aos meus filhos. Porque isso eu não sei desrever. Porque isso não se conta. Como não se conta as vezes em que quis ser boa mãe e não pude. Porque fiz uma escolha e choro todos os dias sobre essa escolha, sobre perder, sobre não saber, sobre não os ver todos os dias. Isso é o despudor. Isto é um despudor com que conto para me conseguir pôr em pé todos os dias de manhã. Todops os dias em que não sei como ela vai para a escola, em que não lhe dei dinheiro para o lanche, em que não sei se tem frio ou calor. Porque os meus filhos, que são a melhor coisa que fiz na vida, vivem no Rio e eu vivo em Lisboa. O pior são as coisas pequeninas. São os silêncios que escolhemos ter porque sabemos que faltam 120 dias para voltar a estarmos juntos. E nunca mais estamos juntos. Nem nunca mais podemos chorar na frente uns dos outros sem achar que nos estamos a fazer um mal imenso. Os filhos são para estar com as mães. Todas as coisas que não vou ter oportunidade de lhes dizer. As coisas que já não me conseguem dizer. Os vestidos que não a vi usar, os braços dele e tudo nele que está um homem. 
Quero dormir. Quero não chorar, quero ser adulta e aceitar-me e aceitar a escolha que fiz, o mal e o bem que lhes faço, saber que sabem que gosto tanto deles apesar do Oceano e de nunca mais os ter acordado para irem para o colégio. Podia continuar. Estou certa que o despudor é isto. Mas de nada me vale. Obrigo-me a parar. O despudor é isto: Viver todos os dias assim tão longe.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

E não me voltes a dizer que não acreditas no Menino Jesus


Como te amo, o que eu amo, até quando amarei, como te quero, ainda, quando já seria altura de não te querer tanto assim porque me habituo aos rituais cedo demais devido a inconstâncias, outros países que já vimos e banalidades que já vivemos com outras pessoas. Por exemplo à banalidade dos almoços fenomenais na Susana e aos jantares em Ipanema e às tuas vontades de descobrires o brilhantismo nos outros, quando esse brilhantismo está precisamente no mapa de estrelas sardentas que só tu viste no meu rabo.  E eu sei que já não quero descobrir mais nada.  Porque te tenho a ti e aos teus Iogurtes Gregos e ao Leite Ucal com Chocolate que nunca ninguém tinha tido o amor de comprar para mim sem precisar perguntar se eu queria.

O amor - este amor - é tanto e tão mal tratado que não acreditas e eu também não te sei explicar, não quero explicar, estou a dormir, não me acordes. Talvez ele seja novo, porque não é uma coisa racional que eu te possa dizer, estou a dar-te o meu melhor e o meu pior para te mimar, segurar, convencer, apaziguar. Porque eu não sei o que é um amor que dure assim, porque nunca tive, porque sou uma perneta amorosa e faço como sei e como presencias diariamente, não sei nada. Não ligo telefones, não faço favores, não deixo de beber, de querer ser eu sozinha como se tu não existisses. E isso é realmente risível, obtuso, egoísta, mau, de propósito, para ti. 

Construo um mundo ao teu lado porque quero. Quero tanto que me atrapalho toda em outros amores e outras conversas e pessoas de onde ainda estou a sair. Talvez por isso, me apanhes toda defeituosa, toda em faltas, toda em culpa, em manias, em certezas, vaidosíssima do meu passado e das minhas pessoas. Que quero que aches sensacionais e isso só tem um nome: Maldade. 

Preciso de alguém que me explique porque nos vieste perguntar se éramos da Tap. Estúpida. Linda. Cheia de castanholas e força e acaso com que brincaste tão elegantemente. Dona da Praia, dona do meu Iphone onde não consegui teclar sequer o teu nome.

Por isso há um Menino Jesus que nos cuida às duas. E me deu tu, e te deu eu: a murros sairemos nós. 
Acredito em ti não por necessidade mas porque senão seria toda baralhada. Mais baralhada, mais triste, mais egoísta, com menos pessoas, mentindo às pessoas. Sem ti.
Tens que acreditar que a cor da tua pele me faz coisas químicas e os teus ombros e braços também fazem coisas físicas e que aquela tua vontade de rir quando fumamos um piriri e voltas a ter quinze anos e és a menina gira e loura do colégio das freiras irlandesas - que não sabe o  mal que faz às freiras  irlandesas só por existir - és o centro do teu mundo. Então repara é aí, Monica Tiple, que  todos os teus amigos e eu nos calamos para te ver e ouvir. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

AnalfaGay

Uma pessoa perspicaz chamou-me Analfagay num bar de camionistas muito feias, antes frequentado pela Madonna em NYC. Eu adoro NYC e a Madonna e nunca tinha ido antes a um bar gay na minha segunda ou primeira cidade do mundo; não sei. Menos ainda ao bar em questão que era em downtown, tudo por causa de ti e que foi uma experiência chata, porque me senti mal, para não dizer fodida porque não entendi nada da linguagem, nem para que servia a jaula gira que lá estava.
Uma outra pessoa, quando eu trabalhava num jornal em Lisboa, há muitos anos atrás e a quem eu pedia para me corrigir os textos, ou não, não, não; estando eu a escrever sobre o Woody Allen chamou-me a atenção sobre como, em português, se escrevia Nova Iorque, porque era sem o Y em York e eu tinha escrito Nova York com o Y em vez do I.
Irritou-me aquilo porque achei uma embirrância - era uma mulher e estava puta da vida porque eu escrevia melhor que ela - mas nunca esqueci. Afinal era a minha primeira ou segunda cidade da vida o que só fez piorar ou melhorar a cena. Não sei como aguentei a correcção porque a odiava. Era insegura e ela entrava no Frágil e eu não, talvez.
Como não consigo esquecer e escrever e são 6.25 da manhã que um senhor de laço e camisa engomada, lia os meus textos, em pé atrás de mim, enquanto eu os escrevia e portanto ainda os está a ler enquanto eu escrevo agora, (na minha cabeça) me ensinou que os advérbios de tempo ou modo, sei lá -  adorei sempre todas as minhas profs de português - não levavam acento.
Ele não disse, Mónica olhe que... Ele disse, Ó miúda ninguém te ensinou que, temporariamente, não leva acento? Então temos que ir tomar um café ali ao lado porque o caralho e não sei quê mais e assim. És mais uma das que não sabe puta merda e vais acabar a escrever para a Impala. Eu já estava a escrever para a Impala, mas nunca tinha privado com este senhor e este senhor usava as camisas mais bem engomadas que eu alguma vez vira, apesar de ser comunista convicto.
Uma gay é uma coisa, um comunista é outra coisa e uma ressabiada outra. E as experiências traumaticamente - leva acento? - boas, uma pessoa não esquece. Os três aparecem-me, às vezes, em pesadelos. Daqueles em que achamos que afinal nunca acabámos o curso. Ou depois acordamos e acabámos, mesmo analfagays e analfabetas e ressabiadas. Mas se tomarmos as pirulas certas acontecem sonhos bons porque acordamos sendo tudo errado, no momento em que queríamos ser tudo certo e para mais virgulando mal,  até nos sonhos. Coisa que nunca ninguém notou me aparecer o meu editor que não queria nada, nem sabia nada mas que agora anda preocupado porque não produzo nada e que ando a ler coisas como: "Tips on identifiyng symbols in your dreams" e Delusions of Gender, how society and neurosexism create difference".
Tenho-o a ele e tenho-te a ti and that´s why i don´t do midtown e um rabinho virado para a lua.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

TV Rural

A Fossa é um lugar amarelo onde se pode estar às vezes na vida. Quando se está na fossa o mundo não serve para nada. Isto é, os pintaínhos deixam de ser queridos, o queijo de Serpa não passa de um queijo Gouda qualquer, as árvores fazem-nos mal e os discos da Maria Bethânia do princípio dos anos 80 voltam ao gira discos - comprei um gira discos para poder ir bem fundo na minha fossa e pendurei o "Pedaços, da Simone, na parede do escritório.
A Fossa é um lugar redondo de onde não se sai sozinho, mas também não se quer estar acompanhado. Na fossa nunca se sabe bem o que se quer, fora da fossa também não, mas dói menos.
Quando se está na Fossa não há nada pior do que ouvir, mas vá, sai lá da cama, vamos almoçar às Azenhas, ou anda comprar um Iphone 5 que eu ofereço. Quando se está na fossa quer-se dormir, ter sonhos absurdos, ficar dias seguidos sem tomar banho e tomar pírulas como se não houvesse amanhã. Porque não há amanhã, nem depois, nem depois, nem depois de depois.
Ontem, estando eu na fossa e com a televisão ligada só para distrair, ouvi aquilo dos deputados do PSD e do CDS estarem a querer a volta do TV Rural à televisão e depois isso fez-me rir. Um bocadinho, porque quando comecei a achar que iria rir muito lembrei-me logo da minha fossa e de que o mundo não faz sentido e de que aquele verme de deputado ali no ecrã da TV devia era ser sodomizado à bruta. Quando se está na fossa, além do mundo ser amarelo, as pessoas ficam más, más, más para quem as faz rir. Nem que seja um bocadinho só.